Viajei com a família entre o Natal e Ano Novo (2010-11). Fomos, de carro, até o “Fin del Mundo”. Passamos por lugares extraordinários desde os Pampas, passando pelos Andes até chegar à Patagônia. Ushuaia, a cidade mais austral do mundo, era o objetivo, mas o quente mesmo foram as geleiras colossais do Parque dos Glaciares, a beleza romântica do Parque Torres del Paine e a escalada ao vulcão Villarrica em Pucón, no Chile.

Só que este post não se refere aos lugares e sim ao francês, ao maliano (natural de Mali), ao chileno, a um casal de alemães e aos aventureiros paulistas que encontrei entre os 12.500km que rodamos.
Benoit Duchateau-Arminjon
O dia era 7 de janeiro de 2011. Estávamos em El Calafate, cidade a 80km do Parque dos Glaciares, sul da Argentina. Fazíamos um passeio em um catamarã pelo Lago Argentino, curtindo o visual e os glaciares.
Logo no início da manhã, um rapaz meio atordoado, sozinho, sentou-se em nossa mesa. Largou a mochila e simplesmente desabou sobre os próprios braços – daquela mesma forma que fazíamos no colégio, durante a primeira aula de segunda-feira.
O barco seguiu pelo lago e ao passo que o cenário ficava cada vez mais deslumbrante, os icebergs chegando perto e as paredes dos glaciares se agigantando à nossa frente… lá estava o cara, dormindo. Percebi que em determinado momento, com o barco parado bem próximo às geleiras, ele foi até o convés*, próximo à proa*. Só que lá, ele se sentou encostado no limite da ponte* e dormiu de novo.
Voltou então para o interior do catamarã e… caiu no sono mais uma vez. Nisso já comentávamos: “poxa, o cara paga uma grana para fazer esse passeio e só dorme!” ou “encheu a cara ontem e agora nem faz ideia do que está perdendo…” e por aí foi.
Ao final do passeio, mais descansado, o sujeito levantou o tronco e abriu os olhos. Quando voltei à nossa mesa, minha irmã exclamou: “Vem cá, ele fala francês!” (captamos o momento em video!). Nesse momento me sentei à sua frente e comecei a usar os 25,87% de francês que eu domino.
Benoit Duchateau-Arminjon nasceu em Savoie, na França. Após largar o emprego na administração da gigante rede de hotéis, Accor – em Bangkok (Tailândia) -, foi para Phnom Penh, capital do Camboja. Lá ele testemunhou as consequência do fim da ditadura de Pol Pot (1989) e deu início à fundação “Krousar Thmey“, que significa Nova Família na língua Khmer (Camboja).
Resumindo, mais de 3,5 mil crianças cambojanas já foram auxiliadas pelo trabalho de Benoit. Desde meninas que se prostituiam nas ruas até o ensino de braile em Khmer. Enfim, um trabalho devidamente reconhecido pela JCI Internacional e Unesco. Não de graça, Benoit é reconhecido como “um dos jovens mais extraordinários do mundo”.
Hoje, aos 46 anos, vive da renda de dois hotéis que tem em Phnom Penh e mora em Buenos Aires. Como mostra no video, fala seis línguas e é uma figura muito simpática e amistosa. É uma honra tê-lo encontrado.
Karim Diarra
Em um momento de descontração, olhando fotos e conversando numa área aberta do hostel em El Calafate, passou por mim um sujeito alto e de pele bem negra. Pensei no mesmo instante: “que bacana, um turista africano”. Até então nunca havia encontrado turistas africanos em nossas viagens.
Comecei a encontrá-lo com frequência. Então descobri: Karim, natural do Mali, trabalha no hostel.
O que fazia aquele cara em El Calafate, na Argentina? Karim sempre sonhou em estudar jornalismo, mas como ele mesmo me contou, no Mali você não estuda o que quer. É o que o governo manda. E ele precisou estudar Medicina Veterinária. Desiludido com as perspectivas, foi para a Argélia, depois Tunísia, seguiu para a Espanha – na época da bolha econômica – depois tentou a vida em São Paulo até que finalmente pousou em El Calafate.
Casou-se com uma argentina e tem dois filhos. Além de trabalhar como “faz tudo” no hostel Las Cabañitas, Karim também dá aulas de inglês e francês. E isso é outra curiosidade bacana. Além das duas línguas, você pode se comunicar com ele em bambara, dioula (ambos dialetos africanos), árabe, espanhol e “portunhol” (veja no video). O cara é extremamente educado, simpático e solícito.
Joel, Johannes e Catherine
O primeiro, chileno nascido em Temuco (região do terremoto do início deste ano) é guia em Pucón. Joel trabalha numa agência de turismo da cidade e sobe e desce o vulcão Villarrica “só” todos os dias. São quase três quilômetros de altura alcançados em 5h com uma mochila abastecida de equipamentos e alimentos, talvez uns 6kg ou 7kg. Por isso sua paciência e simpatia me chamaram a atenção.
Os dois seguintes são alemães de Heidelberg. Johannes acaba de se formar em Arquitetura e Catherine em Psicologia. Ele, gente boa e ela uma graça! Os dois namorados tiraram por volta de três meses para rodar a América do Sul. Além da língua materna, ele fala muito bem espanhol e inglês e ela apenas o inglês. No cume do vulcão eles me pediram dicas de lugares para conhecer no Brasil. Mas queriam saber de lugares bacanas e menos célebres. Eu procurei na memória naquele momento algum lugar que pudesse ser interessante. Apenas lembrei de Jericoacoara e Búzios, mas um israelense que ouvia nossa conversa comentou de Campos do Jordão, porque um familiar dele já havia conhecido e recomendado.
Ducila e Luiz
Uma pena ter tido tão pouco tempo para conhecer esses dois aí. Eles chegaram a El Calafate na noite que precedeu nossa partida. Adeptos de turismo de aventura, os dois são bastante rodados já. Ela teve a oportunidade de ficar 20 dias em Israel e ele já conheceu os Andes lá em cima, no Equador.
Infelizmente os dois não tiveram a mesma sorte que eu. Explico:
Antes de ir pra El Calafate, estive em Torres del Paine (Chile). Dois dias após minha partida de El Calafate, já seguindo de volta para o Brasil (faltavam ainda 4.000km mas enfim…), Ducila e Luiz foram para Puerto Natales, para curtir as famosas Torres del Paine. Chegando lá, a greve dos chilenos já havia começado.
Foram cinco dias presos, com todos os mercados, transportes e saídas da cidade fechadas por manifestantes. Como ela mesmo conta: “Eu já estava angustiada por ficar lá, então resolvi ir a pé até o Rio Turbio (30km de Puerto Natales). O Luiz e um casal de americanos concordou em fazer essa loucura. Chegou um momento que a mochila parecia ter 100kg. Após caminhar uns cinco quilômetros, uma van furou o bloqueio e deu carona para gente. Nem acreditamos! Havia mais de 100 pessoas na estrada tentando chegar ao Rio Turbio! Depois de muito penar, chegamos a El Calafate. Por sorte conseguimos um quarto de hotel, pois todas as cidades argentinas ao redor estavam congestionadas devido a greve chilena. Passei muito mal de ansiedade. Enfim, não conseguimos fazer a viagem que gostaríamos, mas voltamos sãos e salvos a São Paulo.”

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Que pena que vc não comentou dos Judeus. Mesmo sem o Video deles…
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É Ellen… vou inserir essa história (que é bacana). Mas quando, não sei. =)
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Pôxa!Sensacional a ideia “pessoas são uma viagem”, a descrição, a colocação dos vídeos (não tem foto da Ducila e Luiz?)… Que viagem são as pessoas!!! Muito bom! Gostei demais das informações “linkadas”. Pôxa!!! This is my son!
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“As pessoas nao fazem viagens. Sao as viagens que fazem as pessoas” John Steinbeck
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Opa.. adorei as histórias junto com os vídeos para comprovar os fatos e não deixá-los caírem como conto de pescadores hahahaha realmente….. é uma invejinha falar 6 línguas
Acredito que quando lemos histórias ou mesmo contos nós de uma forma mais rápida e menos cansativa nos transportamos para o mundo fictício da historia imaginada na nossa mente, e eu sinceramente acredito e gosto desse sentimento de estar e não ter estado e chegar sem nunca ter ido. (Apesar de que nada tira o gostinho de ter sentido)
Abraços Allan
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Relendo… olhando novamente… “viajando” de novo! Que legal você ter estes registros. São dados que agora irão, também, para o álbum de papel. Abração, meu amor!
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