O poder da reputação

Durante a Guerra dos Três Reinos, na China (207-265 d.C.), o grande general Chuko Liang, chefiando as forças do reino Shu, despachou o seu enorme exército para um campo distante enquanto descansava numa cidadezinha junto com um punhado de soldados. De repente, os sentinelas chegaram correndo com a notícia alarmante de que um exército inimigo, com mais de 150 mil homens liderados por Sima Yi, se aproximava. Com apenas uma centena de homens para defendê-lo, a situação de Chuko Liang era desesperadora. O inimigo finalmente ia capturar o famoso líder.

Sem lamentar o seu destino, ou perder tempo tentando imaginar como tinha sido apanhado, Liang ordenou às suas tropas que arriassem as bandeiras, abrissem os portões da cidade e se escondessem. Ele então se sentou na parte mais visível do muro da cidade, vestido com um manto taoísta. Acendeu incenso, dedilhou o seu alaúde e começou a cantar. Minutos depois, viu se aproximando o exército inimigo, uma falange interminável de soldados. Fingindo não ter percebido nada, ele continuou cantando e tocando o alaúde.

Logo o exército estava diante dos portões da cidade. À frente vinha Sima Yi, que na mesma hora reconheceu o homem no muro.

Ainda assim, com os soldados impacientes para atravessar os portões abertos da cidade desprotegida, Sima Yi hesitou, conteve-os e estudou Liang sobre o muro. Em seguida, ordenou a rápida e imediata retirada de suas tropas.

Mas, o que houve?

Chuko Liang era conhecido como o “Dragão Adormecido”. Suas façanhas na Guerra dos Três Reinos eram lendárias. Certa vez, um homem, dizendo ser um tenente inimigo descontente, apareceu no seu acampamento oferecendo ajuda e informação. Liang na mesma hora viu que era uma armadilha; o homem era um falso desertor, e deveria ser decapitado. No último minuto, entretanto, o machado já ia descendo, Liang suspendeu a execução e propôs poupar a vida do homem se ele concordasse em ser um agente duplo. Agradecido e aterrorizado, o homem concordou e começou a fornecer informações ao inimigo. Liang venceu batalha atrás de batalha.

Noutra ocasião, Liang roubou um selo militar e forjou documentos despachando as tropas do inimigo para localidades distantes. Com as tropas dispersas, ele conseguiu capturar três cidades e assim controlar todo um corredor do reino inimigo. Ele também levou o inimigo, certa vez, a acreditar que um dos seus melhores generais era um traidor, forçando o homem a fugir e juntar forças com Liang. O Dragão Adormecido cultivou cuidadosamente a sua reputação de homem mais astuto da China, aquele sempre com um truque escondido na manga. Eficaz quanto qualquer outra arma, esta reputação amedrontava o inimigo.

Sima Yi tinha lutado contra Chuko Liang dezenas de vezes e o conhecia bem. Quando ele chegou à cidade vazia, com Liang rezando em cima do muro, ficou atordoado. O manto taoísta, o canto, o incenso – aquilo tinha que ser um jogo de intimidação. O homem evidentemente estava brincando com ele, desafiando-o a cair numa armadilha. O jogo era tão óbvio que por um momento Yi chegou a pensar que Liang estava realmente sozinho e desesperado. Mas ele tinha tanto medo de Liang que não ousou se arriscar. Assim é o poder da fama. Capaz de colocar um enorme exército na defensiva, até forçá-lo a bater em retirada, sem atirar uma única flecha.

Como diz Cícero, até os que condenam a fama querem seus nomes no título dos livros que escrevem contra ela, e esperam se tornar famosos por desprezá-la. Tudo o mais está sujeito a barganha: permitimos que nossos amigos fiquem com nossos bens e nossas vidas, se for necessário mas é raro dividirmos nossa fama e darmos de presente para alguém a nossa reputação.
Montaigne, 1533-1592


Referência:
As 48 Leis do Poder, de Robert Greene e Joost Elfers. Pág. 65 e 66.

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