Fim da novela Isabella Nardoni

É comum determinados crimes serem transformados em novelas pelos telejornais das emissoras brasileiras. Não creio que esse seja um fenômeno exclusivo nosso, mas sem dúvida a busca por audiência é sempre maior que a busca por justiça. João Hélio, Isabella e Eloá são exemplos recentes deste fenômeno jornalístico.

Depois da semana de julgamento do casal Nardoni e de perceber as reações populares acerca do fato comecei a refletir muito sobre a responsabilidade do jornalismo. Não posso afirmar o porquê, mas cada vez mais o entretenimento nos envolve onde quer que estejamos. A notícia em si está virando um produto ampliado. Os telejornais, além de informar, passaram a ser revistas televisivas reforçando algo que tenho dito: “O jornal, hoje, é novela antes da novela.”

A “novela” Isabella só faltou ser transmitida em 3D. Há 2 anos o episódio brasileiro de CSI tinha início. Hoje, com o julgamento do casal Nardoni as atenções populares se assemelham ao último capítulo de uma bem escrita “novela das 8″, mas com um grande diferencial de entretenimento. A interação.

Além das inúmeras enquetes pela internet, gente do Brasil todo se enfileirou em frente ao Fórum de Santana para acompanhar o desfecho da história in loco. A imagem de um desempregado de Brasília me chamou muito a atenção. Ele optou ir para São Paulo acompanhar o julgamento. Não quero julgar a opção do cidadão, que é livre, mas sim ilustrar as consequências do valor que a mídia deu a este caso. Outras imagens me chamaram a atenção, como as agressões ao advogado de defesa do casal, flagradas no video abaixo:

E também o de uma mulher que, com uma criança no colo, tenta agredir outro popular que não compartilha da opinião da maioria e, com mensagens escritas em uma folha de caderno, chama a atenção para o prejulgamento e senso comum.

O caso foi polêmico e complicado. Existiam fortes indícios de os réus serem os assassinos, mas as provas eram inconclusivas. A polícia provavelmente estragou algumas delas (8 policiais entraram no apartamento no dia do crime) e talvez por isso influenciou o quanto pôde para condenar os suspeitos.

Com tudo isso não quero concluir que acho que o casal deveria ser absolvido, mas discutir a responsabilidade do jornalismo que vem condenando o casal há 2 anos. Em vez de manter a dúvida de uma história inconclusiva, a mídia elegeu previamente os vilões, influenciou toda opinião pública e o promotor Cembranelli ganhou o status de mocinho.

A comemoração com o sentenciamento do casal, como a vitória em uma final de Copa do Mundo, com direito a fogos e carreatas mostra tamanho desvirtuamento que sofreu o caso. A tentativa de agressão ao advogado de defesa e mais tarde dos sentenciados nas suas saídas do Fórum prova o quanto ainda nos falta civilidade.

A corrupção mensalão de nossos comandantes políticos mata indiretamente muitas Isabellas por ano, mas como isso não sensibiliza, não produz reações a altura do que os Nardoni provavelmente fizeram.

Agora veja o video abaixo. É do julgamento de uma indiana:

O que você sentiu ao assistir esse video? Além de repulsa, eu pensei: “Que absurdo, que primitivo!”

O primitivismo dessa cena eu comparo às reações populares e suas comemorações com o fim do julgamento da “novela Isabella”.


Eis um ótimo post sobre o que também penso:
Opinião do antropólogo e professor da Universidade Federal da Bahia, Roberto Albergaria


GD Star Rating
loading...

1 Comentário

  1. avatar

    parabens allan…
    eu nao gostei.. mas li até o final viu :D

    eheheheh
    eu acho q vc tem q escrever pra times new roman brow!
    abrass!

    GD Star Rating
    loading...
    GD Star Rating
    loading...

Algum comentário?