Sorte Inca

Em 1533 o pessoal liderado por Francisco Pizarro basicamente determinou sua ocupação em terras sulamericanas. O último imperador Inca resistiu à conversão cristã, então não foi poupado, foi executado.

Tratados entre Portugal e Espanha, ocupações e muitos anos depois, a cidade perdida de Machu Picchu foi encontrada. Uma expedição de 1911, liderada pelo professor americano Hiram Bingham abriria caminho para o estudo e exploração do maior ponto turístico do Peru e desde 2007 uma das Sete Maravilhas do Mundo.

Após seguidos anos de “praia nas férias”, minha família decidiu que a virada de 2007/08 seria diferente. Na parceria da família Bobatto (madrinha, “madrinho” e primos), em vez de seguir rumo ao leste clássico (Camboriú, Meia-Praia, Caiobá etc), pegamos rumo oposto e viajamos ao famoso desconhecido. De carro e viajando pelo interior da Argentina, fomos ao encontro de cidades como Salta, San Salvador de Jujuy e San Pedro de Atacama, gratas surpresas. Passamos pela Cordilheira dos Andes, conhecemos o extremo norte do Chile e então invadimos o Peru subindo até Cuzco para, enfim, encontrar Machu Picchu, nosso objetivo final.

É necessário certo trabalho logístico para ir de Cuzco a Machu Picchu. Primeiro vai-se de carro até Ollantaytambo. De lá, embarca-se em um trem que vai até Águas Calientes, cidadezinha ao pé de Machu Picchu. Então para chegar aos quase 2500m de altura onde está a “Cidade Perdida”, pega-se um ônibus.

Tudo começou por volta das 4h da manhã do dia 1º de janeiro de 2008. Seríamos o primeiro grupo a chegar a Machu Picchu, bem cedo na manhã. De van, fomos até Ollantaytambo e então pegamos o trem. Poucos minutos após nossa partida em direção a Águas Calientes o trem parou. Um “derrumbe” de pedras tinha danificado parte dos trilhos. Tivemos que esperar o conserto antes de prosseguir, mas não sabíamos que isso levaria 6 horas e que esse tempo influenciaria muito o desfecho de nossa visita a Machu Picchu.

O que fazer por 6 horas dentro de um trem no caminho entre Ollantaytambo e Águas Calientes? Conversar com as outras pessoas que estão na mesma situação!

Conhecemos quatro turistas alemães e uma família de São Bento do Sul (SC), que já tinha ouvido falar de Marechal Rondon por causa do Willmutt. Mas foram com os alemães que meu pai adorou “brincar”. Quando descobriram que aquele sósia do Bill Gates falava alemão então…

Com o caminho liberado, prosseguimos viagem. Chegamos a Águas Calientes próximos da hora do almoço, bastante atrasados em relação ao horário pré-programado, então mal comemos e já embarcamos no ônibus que sobe a montanha onde está Machu Picchu.

O lugar é de beleza única! A localização da cidade, sua arquitetura, agricultura e o conhecimento astronômico demonstrado pelos Incas em pleno séc. XIV e XV é fascinante. Vale até mesmo mais que uma visita!

Passamos o dia lá. Veronica, nossa guia, apresentou todo o lugar, contou algumas histórias e no final até despejou uma garrafa de vinho inteira em um local de oferendas.

Por volta das 21h voltamos para Águas Calientes. O maior deus Inca, o Sol, já havia nos deixado, mas foi possível pelo menos jantar com calma.  Próximo da meia-noite voltamos a Ollantaytambo, hora de pegar a van de volta ao hotel em Cuzco. Além de toda a família, na van estavam aqueles quatro amigos alemães. Um veio do lado do motorista e os outros três logo atrás. Minha família ocupou o restante da van. O clima estava gostoso, meio friozinho, então foi entrar na van e o pessoal começou a relaxar. Eu estava quase dormindo quando, passando por uma lombada na vila Urubamba, uma porrada no vidro lateral da van me acordou de susto.

Eram dois nativos.
Em suas mãos, pedras.
Em seus olhos, mais esclera que íris e pupila.

Completamente insanos, eles batiam com as pedras na lateral da van. Um deles começou a discutir com o motorista, outro nativo. É o momento que deu-se início o “cabo-de-guerra Inca de sorte e revés”.

O dano nos trilhos em Águas Calientes foi um revés, nada comparado às enchentes de alguns meses atrás, claro. A abordagem desses nativos furiosos foi mais um azar nosso, mas tivemos sorte também. O nativo, que discutia com o motorista decidiu atirar uma das pedras que segurava. Ela passa pela janela da porta, que estava aberta e quebra a janela da porta do carona alemão. Sorte dele, a pedra passa sem atingí-lo.

Para nosso azar, isso foi o estopim da quebradeira. Nosso motorista, sem opção, acelera rapidamente a van ao mesmo tempo que começam a jogar pedras nos vidros laterais do carro. Nossa sorte aí foi que, enquanto discutiam, fechamos as cortinas. Essa iniciativa pode ter me salvado de ferimento bem grave. Uma “senhora” pedra foi jogada justamente onde eu estava sentado, mas a cortina segurou os estilhaços do vidro e a própria pedra, que certamente me atingiria. Aqueles três alemães sentados logo atrás do motorista já não tiveram a mesma sorte. O mais próximo da janela foi atingido na cabeça, provocando um pequeno corte. Azar o dele.

Mas ele teve sorte por não ter acontecido o mesmo que sofreu aquela estudante há poucas semanas atrás em Londrina.

Alguns metros percorridos e encontramos dois ônibus parados, também quebrados. Nosso motorista parou e saiu simplesmente, nos deixando sozinhos. Momento depois uma das guias dos ônibus a nossa frente, toda solícita: “Fiquem calmos que eu já chamei a polícia e assistência médica. Logo virão.” Após traduzir para o alemão ferido, ele exclamou transtornado: “Não vou para nenhum hospital. Daqui não!”

Outro alemão disse pra gente: “Achei que isso acontecesse no Brasil!”. Meses depois eles conheceriam o carnaval carioca. Claro que no momento não falamos que no Brasil poderia ser pior.

Passou-se mais de 30min e nada de polícia ou ambulância. De repente um grupo começa a surgir no breu da rua, vindo em nossa direção. Era nosso motorista, junto com os motoristas dos ônibus atingidos e os dois baderneiros, seguros pelos colarinhos. No melhor estilo peruano, os dois são atirados para dentro do compartimento de malas de um dos ônibus e levados por todos nós à delegacia. Azar o deles.

Depois de tudo resolvido, o motorista nos explicou que o motivo de tudo aquilo não foi uma tentativa de assalto, mas uma “represália” por termos excedido a velocidade de 35km/h ao passar pela vila. A conta da van não sei quem pagou. Azar o dele.

No outro dia encontramos estilhaços de vidros em nossos bolsos e dentro dos tênis, mas ninguém se feriu com gravidade. Sorte nossa.

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6 Comentários

  1. Ellen

    O pai disse que a vontade era quebrar a cara deles, mas depois, na delegacia, só mandou eles para aquele lugar. Será que eles entenderam?

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  2. Robinson

    Conheci essa corajosa família num acaso lá em Cuzco (2007)…
    Meu amigo Alan… vc nasceu para fazer história…
    Seu fã.

    Tupino.

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  3. Pacheco

    poxa cara… isso eh de deixar pedro e bino no chinelo!!!
    da próxima vez vou te levar junto qdo viajar! vc eh sinonimo de confusão meu brodah!!!
    abraços… o blog tá incrível coléééga!
    :D

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  4. Marcos Limberger
    Marcos Limberger

    Volto a reforçar: o texto está muito grande, não tem como você gravar o áudio e disponibilizar o post em mp3???

    Como já sei da história…pelos menos esses “índios” não cobram pedágio!!

    Abçs

    “Nusss” esse site tá muito louco!! (vc mandou eu elogiar!!)

    Contratem o Magrelo, ele tem talento!!!

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  5. Ouch!mann

    Grande Marcão!
    Não é o tamanho do texto que me preocupa cara. Se tiver algum erro gramatical ou de concordância e você perceber, agradeço a observação.

    Para audio e video acesse Youtube.

    E outra, não mandei elogiar, mandei CRITICAR. hehehehe
    Também amo você cara.

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  6. Idette

    Este relato está simplesmente claro, envolvente, “transportante”… Vive-se e revive-se os acontecimentos. Excelente!

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