Medo e suas variantes

Em 13 de maio de 2006 O Rappa se apresentaria em Londrina. Sempre gostei muito da banda e estava fazendo expectativa durante o dia para a festa que vinha. Uma hora antes do show ter início peguei o carro e segui pela avenida principal de Londrina em direção ao local da festa.

Próximo do Mercado Guanabara, a pouco mais que 60km/h sou fechado de súbito por um bêbado e sua Ranger duplada que me deixou sem alternativa. O fato aconteceu em milésimos de segundo, mas a consciência de que não haveria o que fazer e que eu iria bater me fez sentir medo e meu corpo se preparou para o impacto.

Ao pisar no freio e perceber que o carro travou os pneus e seguia reto na porta do motorista bêbado, instintivamente soltei o pé do freio e tentei contorná-lo pela traseira. Acertei o diferencial traseiro da camionete. A porrada foi boa, talvez a uns 50km/h. E então meu querido “Delorean” estava morto. Carro velho e importado, a receita perfeita para um acidente leve com perda total. Minha sorte nesse caso foi que o motorista era empregado do dono da Ranger. Nada mais nada menos que o senhor Paulo Pimentel. O seguro, dele, pagou tudo, claro!

Hoje, ao analisar aquele medo sentido instantes antes do impacto, garanto que foi algo gostoso de sentir. Adrenalina, algo talvez parecido com um salto de Bungee Jump ou um passeio por uma montanha russa mais ousada. As consequências de ter batido meu carro é que não foram nada boas.

Mas tem como ser pior

Ao final do programa IGE, tive a oportunidade de conhecer outros países e cidades de toda a Europa. Há uma semana de voltar para o Brasil, quando eu pensava que tudo que tinha que acontecer já havia acontecido, vem esse fato em Londres e me testa. Dessa vez o medo que me tomou o corpo foi completamente diferente daquele “friozinho gostoso na barriga pré-impacto” contado acima.

Eu estava hospedado na casa da prima da Regina, integrante do IGE e que já havia voltado para o Brasil. A casa dela fica em Woolwich, 1h 30min do centro de Londres. Na madrugada do dia 14 de julho de 2008 eu tinha voo marcado do Aeroporto Luton para o Charles de Gaulle, em Paris. Ficaria minha última semana na Europa antes de voltar ao Brasil.

O voo saía as 4h da manhã. Alguns minutos antes da meia noite eu saí do apartamento. Eu deveria pegar um clipper no Tâmisa (aqueles barcos rápidos), atravessar o rio, pegar um trem do outro lado, depois um Underground (metrô) e depois um ônibus para o Luton. Teoricamente complicado, mas eu já havia ido e voltado tantas vezes do centro que o trajeto já parecia familiar.

Com toda minha bagagem (um mochilão e uma mochilinha) em mãos, segui para a beira do rio Tâmisa para pegar o clipper. Passou-se da 0h, hora que supostamente sairia o último clipper. Ele não apareceu. Um friozinho pouco confortável se apoderou da minha barriga.

“O que vou fazer?” Pensei. “Vou voltar até o apartamento e pedir ajuda.” Chegando de volta ao apartamento… como eu entro? Como eu os chamo? A entrada do prédio não tinha um interfone. Havia um monte de número ao lado da porta, mas eram para os moradores inserirem suas senhas de acesso ao prédio. Pronto, não havia o que eu fazer. Pensei em gritar, dar a volta, fazer um escândalo… sei lá, mas que vergonhoso seria, né?

Visão do centro de Londres a partir de Woolich

Voltei-me para o lado oposto ao rio, para o interior do bairro, respirei fundo e segui rumo ao desconhecido. Atrás de informação para pegar um ônibus pela primeira vez lá. O silêncio das ruas, somado a sua escuridão devido a pouca iluminação, começou a fazer o medo extremo que já havia habitado meu corpo todo se tornar resignação. Comecei a lembrar das notícias na TV de dias anteriores. “Young man stabbed” daqui, “Gang fight…” dali. O bairro estava nos noticiários devido a vários esfaqueamentos entre gangues.

Lembrar disso só me fez ter a certeza que encontraria Jean Charles de Menezes muito em breve.

Mas continuei seguindo, com um pouco mais de 30kg de bagagem, até o centro de Woolwich. Encontrei na calada da noite uma senhora fechando seu estabelecimento, um bar ou algo do gênero. “Por favor, como eu faço para ir até o Aeroporto Luton?”, perguntei já nervoso. “Você precisa pegar um ônibus daquele lado da rua” apontando para o lugar onde eu deveria ir. Fui até lá e esperei o primeiro ônibus. Assim que chegou perguntei ao motorista: “Esse ônibus vai até o O2?” Lá eu pegaria metrô para o centro de Londres. “Não, você precisa pegar a linha número tal daquele lado lá.” Apontando para onde eu deveria ir.

Lá fui eu novamente. As distâncias entre esses pontos não passava de 200m em um ambiente bastante claro e aberto. Chegando ao novo ponto indicado pelo motorista, encontro um ônibus desligado e o motorista cochilando. Pergunto então para ele: “Este ônibus que vai para o O2?” Irritado por ter sido incomodado o motorista aponta para uma avenida escura e bastante larga. “A uns 500m naquela direção, pegue o ônibus número tal” (Claro, ele disse em jardas, mas depois conferi que eram próximos a 500m).

Com as pernas tremendo lá fui eu em direção àquela avenida larga e escura. Chegando ao ponto, um rapaz já aguardava um ônibus lá. Respirei fundo e tentei esconder meu claro desespero. Sentei na outra ponta do banco, larguei minhas coisas de forma desleixada, pra mostrar para ele que eu estava completamente “tranquilo”. Ele nem me deu bola.

Não havia mais nada na rua. Pessoas, carros… Era o silência completo e o breu envolvendo tudo. Longe na avenida eu percebi um ônibus chegando. Assim que consegui identificar o número, o alívio venceu a queda de braço com o nervosismo. Era este o ônibus. Entrei, confirmei com o motorista e procurei uma poltrona.

Eu tinha um passaporte que era válido para ônibus, trens e undergrounds. Mas não tinha mais libras. Ah! Claro, tinha sim, 5 míseras libras. O ônibus seguiu até o O2, famoso centro de entretenimento de Londres. Chegando lá, corri para a entrada do Underground, que seguiria para o centro e meu desespero poderia ter fim.

“Este underground está em manutenção até 4h da manhã. Tente a linha alternativa bla, bla, bla…” Nem lembro o fim do aviso. Por causa das Olimpíadas que Londres vai sediar, muitos pontos de metrô estão sendo reestruturados. Minha visão ficou turva na hora. A sensação de medo que estava perdendo a queda de braço para a sensação de alívio dá uma reviravolta digna de Falcão depois de virar o boné.

Nervoso como nunca estive antes, a boca extremamente seca, a minha saliva, quando conseguia se acumular, parecia um chiclete. Sem dinheiro, ansioso e perdendo a esperança… até que ouvir um grupo falando em português próximo a um ponto de ônibus me animou, ainda no O2. Aproximei-me, olhei para eles. Pararam de falar e olharam pra mim. “Vocês são brasileiros?”, perguntei com a voz trêmula. Três homens e uma mulher. “Sim”, respondeu um deles. Abrindo mão da educação que eu havia recebido, nem deixei eles continuarem a conversa: “Vocês podem me ajudar a chegar no aeroporto Luton?” Entreolharam-se e começaram a especular qual melhor forma de eu chegar até lá. Eles não tinham certeza.

Até que o mais velho entre eles, um cara de no máximo 40 anos, me convidou para pegar o mesmo ônibus deles. Entramos no ônibus e todos subiram para o segundo andar. Eu fiquei embaixo, logo atrás do motorista. Abracei minhas coisas e fiquei lembrando em como era bom tomar água. De repente esse senhor aparece na escada e me convida pra subir com eles. Começamos a conversar, já que a viagem dali até o centro de Londres levava próximo a 40 min. Foi então que descobri que esse senhor já havia trabalhado em Londres com uma menina de Marechal, que por coincidência eu conheço, a Fernanda Maffei.

Depois de alguns minutos de conversa você pensa que eu havia me acalmado, certo? Não. Continuava tenso. Com a boca seca de tal forma que eu tinha que cuidar para não me morder.

Fomos chegando ao centro da cidade e o pessoal começou a descer. Primeiro foi a moça. Desejou-me sorte. Depois o cara que já conhecia Marechal Cândido Rondon. Poucos minutos mais tarde descemos eu e os outros dois camaradas que faziam parte do grupo. Nos postes haviam informações de rotas de ônibus. Eles me ajudaram a procurar qual seria o ônibus que levava ao Luton. Certo momento um deles encontrou. “Você pega tal ônibus até tal ponto. Lá você vai encontrar outro que leva ao Luton”. Agradeci a ajuda. “Eu moro pra lá” apontando para direção oposta de onde eu devia ir. “Pegue essas 5 libras e boa sorte!” Fiquei, então, 5 vezes mais agradecido. Eu tinha agora 10 libras, fome e muita, muita sede. Eu não havia pedido dinheiro algum. O cara sacou a situação e decidiu me ajudar.

Seguindo para a direção onde eu pegaria o ônibus, o outro cara falou: “Quer saber, vou acompanhar você.” E veio comigo. Pegamos o ônibus em direção ao ponto onde outro levava ao Luton. No caminho passamos próximo ao National Gallery e de longe vimos a estátua de Nelson, importante figura na história da marinha inglesa. “Ah! Olha lá a estátua do Nelson!”, exclamei pro camarada. “O que é isso?” Ele retrucou. Ele nunca havia visto a National Gallery ou mesmo a estátua de Nelson, que ele também não sabia quem era.

Percebi que ele era um humilde brasileiro que estava em Londres para ralar muito, ganhar em libra e sonhar com uma vida melhor, aqui no Brasil.

Chegamos ao local onde o ônibus para o Luton saía. “Você descobre onde fica?”, perguntei ao camarada. “Eu não sei falar inglês”, ele respondeu. Mas não foi difícil, um quarteirão movimentado, duas perguntas depois, lá está. O ônibus fazia o trajeto centro/Luton e custava 14 libras. Perguntei ao motorista se ele aceitava Euro. Disse que não e já se virou para uma mulher que iria embarcar.

Já no Luton, após uma madrugada inesquecível

Eu tinha 10 libras. O camarada percebeu que eu estava de novo encrencado e me deu outras 10 libras. O cara me salva a madrugada toda com informação, em vez de ir pra casa dele vai comigo até um lugar onde ele nunca tinha ido e depois ainda me dá 10 libras (na época quase 40 reais) sem nunca ter me visto antes na vida. O que eu fiz? Dei um grande abraço nele e agradeci completamente emocionado.

Agora não tinha mais erro. Aquele ônibus me deixaria na porta do aeroporto.

Cheguei 2h antes do check-in e ainda com dinheiro para comprar algo para comer e beber. A única coisa que sinto é por não lembrar do nome de nenhum deles e também de não ter anotado e-mail ou informação alguma. Adoraria poder entrar em contato com eles e devolver as 15 libras que me foram emprestadas.


Depois de sofrer com o nervosismo e a sede, uma garrafa d’água mais que especial.

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3 Comentários

  1. avatar

    Ae Feliz!
    Essa cara sou eu!

    conta para depósito:
    Ag: 0850-8
    C/c: 01-05849-74

    não há de que!
    abs

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  2. avatar

    Ufa!!!!
    Ainda bem que só fiquei sabendo de detalhes depois que você já estava em casa. Não consigo imaginar o “tamanho” do desespero…

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  3. avatar

    Nossaaaaaaaaa…passei por algumas situaçoes assim lá,mas nao de madrugada e nem sem dinheiro ,apenas perdida!!!mas já imaginoo sua situaçao..
    Às vezes as pessoas lendo nao conseguem imaginar o que passou,onde e como,(detalhes),mas eu que conheço tudo lá eu me coloco em seu lugar!!! que sufocooooo heinnnnn…eu imagino o alivio quando encontrou ajuda desses brasileiros!!!

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