Na Alemanha, o nazismo marcou demais toda uma geração. Como ferro quente no lombo, a imagem da suástica, o bigodinho entre outras insígnias são estandartes da dor para muitos que viveram direta ou indiretamente a experiência da II Grande Guerra.
Creio que tanto para mim quanto para o restante do grupo do IGE que foi para a Alemanha, a vontade de tocar nesse assunto com o pessoal de lá era esperado com certa ansiedade. Talvez pelo fato de eu ter alguma ligação, mesmo que distante, com o povo alemão (ascendência Lemke Altmann) e porque aquele foi o mais importante acontecimento do século XX.
Esperava ser apresentado à histórias e museus sobre a II Guerra, mas os alemães em nenhum momento alimentaram esse assunto. Foi preciso uma oportunidade surgir para que nós, então, inseríssemos o assunto II Guerra Mundial para eles.
No dia 27 de maio, todo o grupo foi convidado a dar voltas com carros antigos de um dos rotarianos de Castrop-Rauxel. Ele, um senhor de 82 anos havia lutado na guerra com apenas 17 . Durante o passeio com um Horch, uma de suas 3 raridades sobre rodas, eu e os integrantes do IGE Julio e Lincoln seguimos com ele no volante. Após alguns minutos de conversa amistosa perguntei: “O senhor foi para a II Guerra?”
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Foto do passeio feito pela região do Ruhrgebiet. Clique para ampliar a imagem.
Eu sabia que aquela era uma questão difícil e que muito possivelmente ele não gostaria de conversar sobre. Mas ele respondeu: “Sim, servi o exército com 17 anos.” Eu acho que posso fazer ideia das imagens que voltaram à mente daquele senhor. Poucos metros percorridos após o breve diálogo, ele aponta para uma linda casa no horizonte: “Aquela é a casa de um grande amigo meu…” E falou mais sobre o amigo. Informações que nem me lembro agora. Pra mim aquela atitude já havia bastado. Ele não queria mais falar sobre a famigerada guerra. O Julio ainda pediu para insistir no papo, mas preferi parar por ali mesmo.
Estigma de uma palavra
As palavras têm uma força invisível que frequentemente não medimos antes de proferi-las. Eu lembro de muitas vezes magoar pessoas queridas em consequência do mal uso delas. Como uma escopeta, após apertar o gatilho, não há CTRL + Z que resolva.
Jadir, o líder em questão a esquerda e o rotariano alemão. |
Após um dia de muita atividade, parte do grupo foi para a casa de um rotariano. Na cozinha, o anfitrião, eu e o Jadir, líder de nosso grupo era o único que falava alemão em vez de inglês. Uma breve conversa bilíngue se seguiu até o alemão esticar o braço até mim oferecendo uma cerveja. Eu, pensando em ser simpático, arrisquei através do meu fraco alemão: “Erste für mein Führer” (Algo como “Primeiro para o meu líder”). Claramente me referindo ao líder de cujo grupo eu era membro.
“Shut your face!” foi a resposta que recebi instantaneamente ao mesmo tempo que fechava o semblante e recolhia o braço que me oferecia a cerveja. “Never ever uses this word again.” ele reiterou. Eu pedi desculpas, logicamente, mas perguntei como que eu poderia me referir ao líder do meu grupo em alemão. Ele disse: “Leader”, em inglês.
Inconscientemente eu acho que queria “testar” aquele alemão. Não fui completamente ingênuo ao usar a palavra “Führer” é claro, mas também não sabia que a resposta de dar um “peteleco na orelha” seria um “direito de direita no nariz”. De qualquer forma, uma experiência interessante.
Aquele senhor perdeu o avô e teve o pai invalidado na II Guerra. É muito claro perceber a sua repugnância à palavra “Führer”. Ela deixou de ser apenas uma palavra, se tornou uma insígnia de tristeza e revolta para os alemães.
Depois desses fatos, eu ainda tive outras oportunidades de conversa sobre o nazismo, judeus, II Guerra Mundial. Com meu host-father Manfred, após beber algumas taças de vinho, muita informação foi apresentada e também com ele a cicatriz da Guerra existe. Seu pai também foi invalidado durante o conflito. Aqui no Brasil, aqui em Marechal C. Rondon, cidade onde mais de 70% dos habitantes tem olho azul e sobrenome difícil, a II Guerra Mundial é vista com muito interesse. As pessoas gostam de conversar e opinar sobre ela. O curioso ao meu ver é que nós falamos do mais importante fato do séc. XX como se fosse o melhor filme produzido nos últimos 100 anos. Como em qualquer filme, há muita gente que sente atração pelo vilão. Vilões são sedutores de fato. Mas você conhecer famílias dilaceradas por culpa desse vilão ou de consequências diretas da ação desse vilão (russos, ingleses, franceses e americanos mataram muitos alemães, mas não há ódio entre eles), dá uma imagem menos romântica à Guerra.

Cidade de Köln em 1945, após a guerra. Apenas a famosa catedral foi poupada.
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Adorei seu texto! Nunca fui pra Alemanha, mas lembro de uma amiga que foi pra Berlim, que contou que é muito triste ver cemitérios no meio da cidade…tudo lembra a guerra!
Acho que as lembranças da guerra nunca sairão da cabeça das pessoas que viveram isso, e olhando essa imagem de Koln, dá pra ter uma idéia do quanto esse povo sofreu…
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Estou lendo as tuas histórias aqui Allan…todas muito interessantes, muito mesmo …Agora pirei no painel do Horch!! que coisa mais linda de se ver!! hehehe
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