Trecho de Traité sur la tolerance, Cap. VI, Mélanges, p. 583-584
O direito natural é aquele que a natureza indica a todos os homens. Se haveis educado vosso filho, este vos deve respeito como pai e gratidão como seu benfeitor. Tendes direito aos produtos da terra que cultivastes com vossas mãos. Fizestes e recebestes uma promessa, ela deve ser cumprida.
Em todos os casos, o direito humano só pode estar fundado no direito da natureza; e o grande princípio, o princípio universal tanto de um quanto de outro, em toda a terra, é o seguinte: “Não faças a outro o que não queres que te façam”. Segundo esse princípio, não se pode conceber como um homem poderia dizer a outro: “Crê no que eu creio, ou no que não podes crer, ou então perecerás”. É isso que se diz em Portugal, na Espanha, em Goa. Em outros países, atualmente, fica-se satisfeito dizendo:” Crê, ou te abomino; crê, ou então far-te-ei todo mal que puder; monstro, não tens minha religião: é preciso que teus vizinhos, tua cidade e tua província te detestem”.
O direito à intolerância é pois absurdo e bárbaro: é o direito dos tigres, e é bem horrível que assim o seja, pois os tigres só se dilaceram para comer, e nós nos exterminamos por causa de parágrafos.
“Dirijo minha luta não contra as crenças religiosas dos homens, mas contra os que exploram a crença. Detestemos essas criaturas que devoram o coração de sua mãe e honremos aqueles que lutam contra elas. Acredito na existência de Deus. Em verdade, se Deus não existisse, fora preciso inventá-lo. Meu Deus não é um Rei exclusivo de uma simples ordem eclesiástica. É a suprema inteligência do mundo, obreiro infinitamente capaz e infinitamente imparcial. Não tem povo predileto, nem país predileto, nem igreja predileta. Pois para o verdadeiro crente há, apenas, uma única fé, justiça igual e igual tolerância para toda a humanidade.”
Voltaire (1694 – 1778)
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