“[...] Minha hipótese é a de que, tão logo o código de honra deixasse de valer, ninguém mais poderia evitar que, por meio de ultrajes, fosse atribuído algo a outro indivíduo, isto é, que se pudesse tirar a honra de alguém ou restituí-la ao seu dono; ao mesmo tempo, toda injustiça, rudeza e grosseria não poderiam mais ser legitimadas por meio da disponibilidade para dar satisfação, ou seja, pela disputa. Assim, todos iriam entender que, por meio de ofensas, injustiças, da rudeza e da grosseria, perturba-se manifestamente a honra real e natural, isto é, aquela vinculada à opinião, que não é arbitrária (não na sua manifestação, que é arbitrária), pois tudo o que alguém fizesse só teria influência sobre sua própria honra, e não sobre a de outra pessoa.
Desse momento em diante, todos evitariam ofender, como hoje evitam ser ofendidos, e não faria mais sentido querer
revidar e sobrepujar qualquer ofensa de um outro, tal como hoje, se um empurrão acidental no mercado provocasse o mais forte impropério de uma vendedora de verduras ou de peixes, fizéssemos algo mais do que sorrir de sua grosseria. Desse modo, todos, em toda parte (como diz Demóstenes), evitariam descer a esse campo de batalha, no qual o vencido é evidentemente o vencedor.
Além disso, se não fôssemos mais educados na ilusão de que um insulto é uma ofensa à honra, esse insulto não provocaria mais suscetibilidade, mas recairia imediatamente sobre quem o empregou e só ofenderia a ele próprio.
Uma vez que, de acordo com tal configuração, a honra de alguém só estaria posta nas suas próprias mãos, como é natural e racional, tal indivíduo cuidaria do seu lado ativo de modo igualmente rigoroso, como hoje se cuida do passivo. Essa seria, penso eu, uma forma de introduzir o verdadeiro bon ton, e tanto mais quanto a compreensão e o entendimento pudessem expressar-se livremente, sem antes precisarmos considerar se não entrariam em conflito com opiniões da estupidez, o que tornaria necessário pôr em jogo a cabeça em que reside o bom senso contra o crânio oco em que se reside a estupidez.
Desse modo, a superioridade intelectual afirmaria seu primado na sociedade, que hoje é ocupado pela superioridade física, embora enobrecida, o que, para mim, constitui o bon ton e a boa sociedade. Por certo, o bon ton também ganharia com isso, pois não teríamos mais que suportar em silêncio cem pequenas, mas pesadas grosserias – que, na Inglaterra, dão-se apenas nas classes mais baixas, enquanto na Alemanha são freqüentes também nas mais altas -, porque só com perigo de vida podem ser denunciadas. Estas molestam seu ambiente até atingirem alguém que arrisque o próprio pescoço para corrigir quem as comete. Desse modo, a essas coisas seria atribuída apenas a importância que merecem segundo sua natureza. Isso e muitas outras coisas seriam as conseqüências do verdadeiro bon ton que, como tudo o que é bom, é simples e natural. [...]”
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